O cérebro não relaxa
A mente não para
O tempo não volta
A vontade não passa
Inspira
Expira
Relaxa
Lugar de pensamentos, poesias, contos e afins. Espaço para os amigos e para os sonhadores
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
O Calor do Centroeste
Esse calor do Centroeste, onde fui criada, me faz pensar minhas raizes, minhas origens. Faz-me refletir sobre minha constituição.
Questiono então se meu lugar é mesmo aí, na selva de pedras.
Hoje to aqui em Brasília, no Guará, na casa da minha avó. A família já sabe que estou aqui. Um sabe e fala para o outro. Daí, só eu atendo ao telefone – é sempre para mim mesmo. Isso é bom. O ruim é não ter tempo para visitar a todos. Minha madrinha acabou de ligar. Disse que está com saudades, que não vê a hora de me dar um amasso, me botar no colo, me fazer tapioca e café.
Minha bisa também já ligou. Ela é uma fofa! Mulher forte, um exemplo! Minha tia Lourdes, minha prima Ágatha, meus primos Denise, Jairo e Leandro...meus primos Tania e Daniel...enfim. São cerca de 70 pessoas a visitar. Bom mesmo é festa em família. Tipo Natal, sabe? Dá para ver todos, saber de todos, todos se divertem e eu não fico devendo visita a ninguém! Ah! Também preciso passar um dia na casa do Diego e da Carol!!! Se eu não for lá, eles me matam! O tio Alfredo também quer que eu durma em sua casa por uma noite, para comer besteira e assistir filme. E também o Jojoca quer ficar comigo – e me cobra todo Santo dia: “quando vou te ver, tia?”.
Não. Eu não estou reclamando da demanda. Isso é maravilhoso! Reclamo é do tempo que é curto demais para tanto amor! Também, amor guardado por um ano – às vezes mais! É amor acumulado!
Esse calor do Centroeste a minha infância, quando voltávamos da escola – eu e a Mê – era quente assim. A gente voltava suando. Era quente e seco. E a terra vermelha, que nunca deixava a vovó feliz com as nossas roupas e sapatos – sempre encardidos. Nada tira essa cor avermelhada. Ela impreguina na saudade.
O céu daqui é bem estrelado. É lindo saber que, de onde vim, dá para ver as estrelas no céu. É poético até. Amo olhar para o céu de Brasília! Dá uma paz....uma sensação de casa, de lugar.
Minha vó tá aqui estendendo a roupa. E eu to aqui, no chão de cimento com terra vermelha, com um objeto nada familiar no colo – o notebook. Isso entrou depois para a minha história, e não se parece nada, nada com as minhas raízes. Mas bem, me ajuda a trabalhar.
Hoje está um dia bem gostoso: eu e a minha vó aqui em casa. Fazendo pavê, ouvindo música, rezando, ouvindo o vento no milharal, lavando a calçada, falando da vida dos familiares e também, claro, discutindo o meu futuro (entenda-se futuro por marido).
Meu primo Leandro disse que vem me ver à noite. Talvez ele não venha. Ele é enrolado. Tenho até medo de ficar esperando...sabe, né?! To tão em paz...! Queria continuar assim. Mas a ansiedade inquieta o coração.
To me sentindo livre e amada. Que melhor sensação pode existir?? Isso é mesmo uma bênção do Céu.
Questiono então se meu lugar é mesmo aí, na selva de pedras.
Hoje to aqui em Brasília, no Guará, na casa da minha avó. A família já sabe que estou aqui. Um sabe e fala para o outro. Daí, só eu atendo ao telefone – é sempre para mim mesmo. Isso é bom. O ruim é não ter tempo para visitar a todos. Minha madrinha acabou de ligar. Disse que está com saudades, que não vê a hora de me dar um amasso, me botar no colo, me fazer tapioca e café.
Minha bisa também já ligou. Ela é uma fofa! Mulher forte, um exemplo! Minha tia Lourdes, minha prima Ágatha, meus primos Denise, Jairo e Leandro...meus primos Tania e Daniel...enfim. São cerca de 70 pessoas a visitar. Bom mesmo é festa em família. Tipo Natal, sabe? Dá para ver todos, saber de todos, todos se divertem e eu não fico devendo visita a ninguém! Ah! Também preciso passar um dia na casa do Diego e da Carol!!! Se eu não for lá, eles me matam! O tio Alfredo também quer que eu durma em sua casa por uma noite, para comer besteira e assistir filme. E também o Jojoca quer ficar comigo – e me cobra todo Santo dia: “quando vou te ver, tia?”.
Não. Eu não estou reclamando da demanda. Isso é maravilhoso! Reclamo é do tempo que é curto demais para tanto amor! Também, amor guardado por um ano – às vezes mais! É amor acumulado!
Esse calor do Centroeste a minha infância, quando voltávamos da escola – eu e a Mê – era quente assim. A gente voltava suando. Era quente e seco. E a terra vermelha, que nunca deixava a vovó feliz com as nossas roupas e sapatos – sempre encardidos. Nada tira essa cor avermelhada. Ela impreguina na saudade.
O céu daqui é bem estrelado. É lindo saber que, de onde vim, dá para ver as estrelas no céu. É poético até. Amo olhar para o céu de Brasília! Dá uma paz....uma sensação de casa, de lugar.
Minha vó tá aqui estendendo a roupa. E eu to aqui, no chão de cimento com terra vermelha, com um objeto nada familiar no colo – o notebook. Isso entrou depois para a minha história, e não se parece nada, nada com as minhas raízes. Mas bem, me ajuda a trabalhar.
Hoje está um dia bem gostoso: eu e a minha vó aqui em casa. Fazendo pavê, ouvindo música, rezando, ouvindo o vento no milharal, lavando a calçada, falando da vida dos familiares e também, claro, discutindo o meu futuro (entenda-se futuro por marido).
Meu primo Leandro disse que vem me ver à noite. Talvez ele não venha. Ele é enrolado. Tenho até medo de ficar esperando...sabe, né?! To tão em paz...! Queria continuar assim. Mas a ansiedade inquieta o coração.
To me sentindo livre e amada. Que melhor sensação pode existir?? Isso é mesmo uma bênção do Céu.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
As coisas dele
Cara de nada. De coisa neutra.
Cara de conteúdo total. Cara do que é, sem precisar mostrar, parecer.
Linha do horizonte. Coisa que vem vindo, mas não chega nunca – pra não causar.
Quando vem, então, surpreende – porque, afinal, não dava sinais (nunca).
Se não fala, é difícil saber.
Difícil ler as entrelinhas de quem já é entrelinha.
A obra está escrita. Mas, compreende melhor quem é iletrado.
Compreende melhor quem é mais inclinado, mais de toque, mais de coração, mais de...
...sem pensar. Só de ver, só de olhar.
Não vou falar. Ele não vai falar. Não vai explicar. Se não, perde a vez, perde o motivo, a razão.
O tesão é o não saber.
O tesão é mergulhar.
Te convida a ser.
"Vem, que no caminho eu te explico"
Cara de conteúdo total. Cara do que é, sem precisar mostrar, parecer.
Linha do horizonte. Coisa que vem vindo, mas não chega nunca – pra não causar.
Quando vem, então, surpreende – porque, afinal, não dava sinais (nunca).
Se não fala, é difícil saber.
Difícil ler as entrelinhas de quem já é entrelinha.
A obra está escrita. Mas, compreende melhor quem é iletrado.
Compreende melhor quem é mais inclinado, mais de toque, mais de coração, mais de...
...sem pensar. Só de ver, só de olhar.
Não vou falar. Ele não vai falar. Não vai explicar. Se não, perde a vez, perde o motivo, a razão.
O tesão é o não saber.
O tesão é mergulhar.
Te convida a ser.
"Vem, que no caminho eu te explico"
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
TODOS OS PORQUÊS
Quando aprendemos literatura no colégio, estudamos cada escola literária, analisamos o estilo poético de cada autor: sua forma de escrita, as figuras de linguagem utilizadas, gênero e número do eu lírico, tipo de narração, entre outros detalhes. Atentamo-nos também ao contexto sócio, político, econômico e cultural em que o artista viveu e interpretamos os textos tomando por base a junção de todas essas informações.
Ao entender a obra, deduzimos então o que o autor sentia naquele momento. Tentamos apontar como ele pensava, o que sentia, que relações que estabeleceu na construção das metáforas, enxergamos as mais diversas comparações... É como se estivéssemos acima da mente do escritor enquanto ele redigia.
Vamos tomar um exemplo sólido.
O texto anterior mesmo (vide o texto Pequeno Gatinho), alguém aqui compreende a metáfora do gatinho? Conseguem me acompanhar nas minhas associações? Sabem o que se passava na minha cabeça enquanto escrevia?
Adianta falar que vivo no século XIX, que sou publicitária, que faço isso, aquilo e aquele outro? Que freqüentei tal escola, que leio tal material, que uso A, B ou C como referência, que sigo tal exemplo? Que o mercado é globalizado, que os países tentam manter acordo diplomático, que a crise financeira de um país afeta na economia de outro em outro continente? Que a era digital já chegou, que não existem mais barreiras geográficas e que a comunicação é a base da sociedade moderna? Que as relações humanas estão cada vez mais complexas e há guerras por todo e qualquer motivo, em todo lugar: lutas armadas e ideológicas.
E agora? Facilitou sua compreensão? Conseguiu “sacar” um algo mais?
Cada um interpreta de acordo com a suas referências, a sua bagagem cultural.
Longe de mim pensar que alguém aqui é mais ou menos culto, mas pergunto, por que aprendemos assim na escola se a realidade é outra? Ai, ai, ai...
É claro que quando conhecemos o contexto, enriquecemos nossa cultura e isso nos permite compreender melhor os fatos. Mas e quando só temos o fato? Deduzimos o contexto, pressupomos a emoção? Com base em quê?
Suponhamos que daqui a um século um estudante leia meu texto e este por sua vez deverá estudar meu tempo, analisar as condições socioeconômicas e culturais em que vivi para compreender o que eu sentia no momento que escrevi. (pouco pretensioso isso... rs. Até me senti “a artista”)
E quem dirá que a interpretação e conclusão obtida sejam realmente aquela que corresponde ao momento no qual me encontrava?
Falando francamente... quem sabe se até mesmo eu saberei explicar todos os porquês, relatar as emoções que senti quando escrevi.
BaH BaH BaH!!!!
Ao entender a obra, deduzimos então o que o autor sentia naquele momento. Tentamos apontar como ele pensava, o que sentia, que relações que estabeleceu na construção das metáforas, enxergamos as mais diversas comparações... É como se estivéssemos acima da mente do escritor enquanto ele redigia.
Vamos tomar um exemplo sólido.
O texto anterior mesmo (vide o texto Pequeno Gatinho), alguém aqui compreende a metáfora do gatinho? Conseguem me acompanhar nas minhas associações? Sabem o que se passava na minha cabeça enquanto escrevia?
Adianta falar que vivo no século XIX, que sou publicitária, que faço isso, aquilo e aquele outro? Que freqüentei tal escola, que leio tal material, que uso A, B ou C como referência, que sigo tal exemplo? Que o mercado é globalizado, que os países tentam manter acordo diplomático, que a crise financeira de um país afeta na economia de outro em outro continente? Que a era digital já chegou, que não existem mais barreiras geográficas e que a comunicação é a base da sociedade moderna? Que as relações humanas estão cada vez mais complexas e há guerras por todo e qualquer motivo, em todo lugar: lutas armadas e ideológicas.
E agora? Facilitou sua compreensão? Conseguiu “sacar” um algo mais?
Cada um interpreta de acordo com a suas referências, a sua bagagem cultural.
Longe de mim pensar que alguém aqui é mais ou menos culto, mas pergunto, por que aprendemos assim na escola se a realidade é outra? Ai, ai, ai...
É claro que quando conhecemos o contexto, enriquecemos nossa cultura e isso nos permite compreender melhor os fatos. Mas e quando só temos o fato? Deduzimos o contexto, pressupomos a emoção? Com base em quê?
Suponhamos que daqui a um século um estudante leia meu texto e este por sua vez deverá estudar meu tempo, analisar as condições socioeconômicas e culturais em que vivi para compreender o que eu sentia no momento que escrevi. (pouco pretensioso isso... rs. Até me senti “a artista”)
E quem dirá que a interpretação e conclusão obtida sejam realmente aquela que corresponde ao momento no qual me encontrava?
Falando francamente... quem sabe se até mesmo eu saberei explicar todos os porquês, relatar as emoções que senti quando escrevi.
BaH BaH BaH!!!!
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
PEQUENO GATINHO
Em meados do século XIX, o Brasil sustenta-se basicamente de uma economia agro-exportadora, dominado por uma elite oligárquica escravocrata.
É em meio a esse cenário que, no Rio de Janeiro, vivem os Albuquerques.
Dona de uma bela mansão em Copacabana, a família, de origem burguesa segue rígidos costumes de postura e conduta. Enquanto o pai administra as terras da família, a mãe orienta os criados nos afazeres da casa.
Clarissa, de 7 anos, é a filha caçula do casal. Todas as manhãs ela brinca, sob os olhares atentos da babá, nos fundos da casa.
Certo dia, o mordomo a encontra toda suja, chorando.
Coloca-a carinhosamente em seu colo e a acalma:
- Oh bela menina, por que choras?
Ao olhar ao redor e procurar os motivos do pranto da pequena, avista no mudo da residência, um gato. Deduzindo o ocorrido, indaga:
- O bichano fugiu de ti? Arranhou-te? Machucaste o joelhinho? Não chora!
Ainda com a garotinha em seu colo, ele acaricia os cabelos e continua o discurso:
- Não fique triste, o gatinho quer ser livre como um passarinho. Vai lavar-te, fica bonita que logo ele aproximar-se-á de ti, bonequinha.
É em meio a esse cenário que, no Rio de Janeiro, vivem os Albuquerques.
Dona de uma bela mansão em Copacabana, a família, de origem burguesa segue rígidos costumes de postura e conduta. Enquanto o pai administra as terras da família, a mãe orienta os criados nos afazeres da casa.
Clarissa, de 7 anos, é a filha caçula do casal. Todas as manhãs ela brinca, sob os olhares atentos da babá, nos fundos da casa.
Certo dia, o mordomo a encontra toda suja, chorando.
Coloca-a carinhosamente em seu colo e a acalma:
- Oh bela menina, por que choras?
Ao olhar ao redor e procurar os motivos do pranto da pequena, avista no mudo da residência, um gato. Deduzindo o ocorrido, indaga:
- O bichano fugiu de ti? Arranhou-te? Machucaste o joelhinho? Não chora!
Ainda com a garotinha em seu colo, ele acaricia os cabelos e continua o discurso:
- Não fique triste, o gatinho quer ser livre como um passarinho. Vai lavar-te, fica bonita que logo ele aproximar-se-á de ti, bonequinha.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
5 MINUTOS NA JANELA
É a buzina que berra
O carro que passa
O semáforo que fecha
E o trânsito que para.
É a moça que atravessa
E está com pressa, pressa,
Muita pressa, sempre com pressa
Atrasada, alienada, sem tempo pra nada...
O céu, em seu azul mais anil, mas quem viu?
E o sol... esquenta a manhã de verão.
O carro que passa
O semáforo que fecha
E o trânsito que para.
É a moça que atravessa
E está com pressa, pressa,
Muita pressa, sempre com pressa
Atrasada, alienada, sem tempo pra nada...
O céu, em seu azul mais anil, mas quem viu?
E o sol... esquenta a manhã de verão.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
POR QUE VOCÊ?
Por que você apareceu?
Por que você cruzou meu caminho?
Por que você mexe assim comigo e me deixa completamente fora...
Por que só você tira meu sono?
... aumenta minha fome?
... desperta meu desejo?
... instiga meu instinto?
... me faz sonhar acordada, viajar nas nuvens?
Por quê?
Por quê?
Por que você?
Por que você cruzou meu caminho?
Por que você mexe assim comigo e me deixa completamente fora...
Por que só você tira meu sono?
... aumenta minha fome?
... desperta meu desejo?
... instiga meu instinto?
... me faz sonhar acordada, viajar nas nuvens?
Por quê?
Por quê?
Por que você?
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
REENCONTRO
O som eletrizante e envolvente a contagiava
Extasiada, ela apenas dançava e sorria
Movimentos ritmados, compassados e sensuais faziam dela, o foco.
Ele chegou.
Ela parou.
Coração batia na ânsia do reencontro
Aproximaram-se
Tocaram-se
O cheiro dele a hipnotiza
Os lábios sedentos encontram-se, os corpos suados conversaram, enquanto que as mãos uniram-se.
O sorriso estampava a euforia do momento, findado pelo beijo.
Extasiada, ela apenas dançava e sorria
Movimentos ritmados, compassados e sensuais faziam dela, o foco.
Ele chegou.
Ela parou.
Coração batia na ânsia do reencontro
Aproximaram-se
Tocaram-se
O cheiro dele a hipnotiza
Os lábios sedentos encontram-se, os corpos suados conversaram, enquanto que as mãos uniram-se.
O sorriso estampava a euforia do momento, findado pelo beijo.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Acordo ortográfico é um desacordo cultural
Tô P!
PQP! Esse novo acordo ortográfico dos países lusófonos avacalhou geral.
Primeiro, porque lusófonos já é palavra suficientemente feia, você não concorda?
Vinícius de Morais, eterno defensor da beleza, certamente a desaprovava. Não duvido que ele jamais a tenha pronunciado em suas andanças noctívagas pelos bares do Leme ao Leblon.
Se alguém me chamar de lusófono, ainda que eu o seja, juro que saio no braço. Sinceramente, leitor: você faria acordo com alguma coisa lusófona sem um certo receio de má fama?
– Vi Fulano andando com um lusófono.
– Hum… faz tempo que eu já desconfiava…
Depois – e principalmente –, porque desde a eleição do Lula, com seu absoluto desprezo às letras e irrestrito desdém ao conhecimento, com o tal acordo estou para ver tamanho triunfo das nulidades (ao falar em ver triunfar as nulidades, desta vez quem suspirou no túmulo foi Rui Barbosa… nulidades, lulidades… hã, hã?)
Voltando à orto-catástrofe, pra quê, por exemplo, matar o trema? O prestimoso sinal nos alertava para os casos onde se exigia a pronúncia da letra u, esta, sim, uma pobre coitada não raro vítima do prepotente q, que, quando pode, faz calar sua boca. O u deve ser uma letra muito sofrida. Em determinados casos salvava-lhe o trema, que, dedo em riste, proclamava: “aqui o q não manda coisa nenhuma, é território soberano do u! Exijo que o u seja respeitado como merece! Pronunciem-no, pois!”
O trema era um sujeito firme e de bom caráter. Sem sua ajuda, o leitor terá de se virar sozinho para descobrir quando o u deve ser pronunciado em que/qui/gue/gui (para que o leitor tenha certeza da minha intenção em relação à pronúncia do u, devo informar que escrevi cuê, cuí, gu-ê, gu-í. Lamentável…).
– Mas em nome estrangeiro o trema fica!
– Ah, tá! Ele deve ter adorado continuar na Bündchen da Gisele.
E o que dizer, então, do frio assassinato do acento diferencial? Já vou avisando aos politicamente corretos, sempre tão míopes, que acentos diferenciais não pregam nenhum tipo de discriminação entre quem quer que seja. Ao contrário, ao apontarem as diferenças, trazem à tona as qualidades intrínsecas de cada um e cada coisa, valorizando todos.
Mas veja a leitora ou o leitor que ridícula a frase “O automóvel para para não bater no caminhão”. Vá explicar a um estudante que os dois para são coisas completamente diferentes. Que um é preposição, o outro é verbo.
– O que é verbo, fessô?, perguntaria algum aluno dessas faculdades de fino trato que ultimamente o MEC autorizou pipocaram à farta por aí.
Não bastasse, nossos brilhantes e atarefados tomadores de chá, folgada e eternamente assentados na Academia, atrapalharam-se com as letras e, em lugar de mexerem o traseiro no assento (com ss), resolveram fazê-lo nos acentos (com c) agudo e circunflexo.
No agudo:
– Manhê, lá na escola tava escrito Coreia num cartaz. Será que esqueceram de um r no nome do seu Correia, o bedel?
– Não, filho! Isso deve ser coisa de algum bedel mental…
E o circunflexo, então? Agora, como diferencial, só será mantido no plural dos verbos ter e vir, o que vai deixar muito redator com um certo enjoo descircunflexado.
Bem, também tem o hífen, que, é claro, não poderia faltar. Pois o tal desacordo chatográfico-lusófono (alerto insistentemente ao leitor que evite a companhia da palavra) conseguiu a rara proeza de trocar seis por meia dúzia, substituindo umas regrinhas bobocas por outras, babacas.
Porém o estrago já foi feito.
Esqueceram-se os acadêmicos, e provavelmente nunca se deram conta as nossas autoridades, que o que diferencia a língua portuguesa das outras do mundo ocidental, inclusive as demais latinas, é sua riqueza incomparável, monumental, sua incrível capacidade de ser sutil, bela, harmônica, maleável, e, ao mesmo tempo, duramente exigente com quem não a conhece minimamente, com quem não a trata com o devido zelo.
Pois é. Os tais acadêmicos, daqui e d’além-mar, até conseguiram lá seus quinze minutos de fama, mas só fizeram papel de macaco em loja de cristais. Aposto um vintém como Fernando Pessoa teria torcido o nariz.
A troco de nada e em nome de coisa nenhuma, nós, brasileiros, que no geral mal sabemos escrever, porque na vida escolar não nos foi dado ler com a abundância recomendável, agora seremos obrigados a correr inutilmente o risco de redigir ainda pior.
Editoras deverão reeditar incontáveis títulos; e engana-se quem acredita que terão lucro estrondoso com isso. Toneladas literais de livros estocados em distribuidores e livrarias tornam-se doravante, por decreto, envelhecidos, desatualizados, refugo. Imagina o leitor quanto custa reeditar um dicionário? E que fazer com meu Aurélio, meu Houaiss? Meus Deus! Jogo-os no lixo? Além da vaca, irão também para o brejo, meus dicionários de etimologia, de citações e o de questões vernáculas, do mestre Napoleão Mendes de Almeida?
As redações de jornais, no afã noticioso, verão aumentados seus escorregões ortográficos e pedidos públicos de desculpas nas colunas “erramos”. Vivo fosse, lá iria o simpático e atencioso Eduardo Martins, pacientemente, revisar seu Manual de Redação e Estilo do Estadão, alertando editores e repórteres sobre os novos riscos de escrever.
E dos professores, sobretudo os da rede pública nos ensinos fundamental e médio, exigir-se-á, mais uma vez, esforço incompatível com seus magros rendimentos – e inexistentes investimentos em atualização pedagógica.
A língua é viva e é do povo. Há séculos o idioma escolheu naturalmente um caminho aqui no Brasil, miscigenando-se com as culturas negra e indígena, e deixando-se também influenciar por culturas européias e orientais. Escolheu outro em Portugal, e outros ainda nos demais países que o empregam na África e na Ásia.
Um puto em Angola é um menino pequeno, no Brasil será outras coisas. Não usamos peúgas por aqui, embora não andemos descalços. Portugueses não entram em filas, mas atrás de bichas, ato que, convenhamos, no Brasil leva às mais constrangedoras interpretações. E sabe Deus a quais influências terá sido exposto o português falado em Macau, Goa, Damão e Timor?
E, de resto, que sabemos nós, brasileiros, verdadeiramente sobre São Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde? Bem, de Cabo Verde temos algum conhecimento da boa música de Cesária Évora. Basicamente, não muito mais que isso!
Os idiomas falados nos tais países lusófonos não são, definitivamente, mesma coisa, mesma pessoa; são mais como irmãos: filhos dos mesmos pais, ainda assim diferentes em suas caras, personalidades e histórias de vida.
“O ser humano é sempre o mesmo, mas em todo lugar ele é sempre diferente”. O que disse Pessoa sobre as gentes vale obrigatoriamente para seus idiomas.
Minha pátria é minha língua. A miscigenação dos povos modifica minha cultura nacional; com isso, os fonemas; com eles, a ortografia. Pessoalmente, advogo que já falamos o idioma brasileiro, mas isso é assunto para outro dedo de prosa.
Eta acordozinho inútil. Só servirá de incômodo cotidiano.
Arrogantemente, sob discutíveis argumentos de aproximação cultural e econômica de povos de idioma comum, os tais dotôres da língua e otoridades da lei – daqui e de lá – usurparam um poder que é dos povos (pois aqui não deveria valer a representatividade), e não fizeram bem algum à língua portuguesa, apenas deixaram-na com mais um pequeno ferimento.
À última flor do Lácio, indefesa, arrancou-se uma pétala. Mal-te-quer.
Texto de ZECA MARTINS [publicitário, articulista WebInsider]
Fonte: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2008/12/21/acordo-ortografico-e-um-desacordo-cultural/´
Muito bom esse artigo sobre o novo acordo ortográfico.
Ao meu ver, foi uma imposição cultural. A língua é um organismo vivo e evolui juntamente com seu povo. Essa história de unificação... aff... onde fica a identidade do povo brasileiro? Por que não unificamos também o inglês falado na Inglaterra, USA e Austrália???? Simplesmente porque são países desenvolvidos?
AFF de novo!
Enfim... já foi feito, né. E nós, profissionais da comunição, professores, autores e demais que nos viremos para "educar" novamente.
Que venham os escorregões da mídia
=)
PQP! Esse novo acordo ortográfico dos países lusófonos avacalhou geral.
Primeiro, porque lusófonos já é palavra suficientemente feia, você não concorda?
Vinícius de Morais, eterno defensor da beleza, certamente a desaprovava. Não duvido que ele jamais a tenha pronunciado em suas andanças noctívagas pelos bares do Leme ao Leblon.
Se alguém me chamar de lusófono, ainda que eu o seja, juro que saio no braço. Sinceramente, leitor: você faria acordo com alguma coisa lusófona sem um certo receio de má fama?
– Vi Fulano andando com um lusófono.
– Hum… faz tempo que eu já desconfiava…
Depois – e principalmente –, porque desde a eleição do Lula, com seu absoluto desprezo às letras e irrestrito desdém ao conhecimento, com o tal acordo estou para ver tamanho triunfo das nulidades (ao falar em ver triunfar as nulidades, desta vez quem suspirou no túmulo foi Rui Barbosa… nulidades, lulidades… hã, hã?)
Voltando à orto-catástrofe, pra quê, por exemplo, matar o trema? O prestimoso sinal nos alertava para os casos onde se exigia a pronúncia da letra u, esta, sim, uma pobre coitada não raro vítima do prepotente q, que, quando pode, faz calar sua boca. O u deve ser uma letra muito sofrida. Em determinados casos salvava-lhe o trema, que, dedo em riste, proclamava: “aqui o q não manda coisa nenhuma, é território soberano do u! Exijo que o u seja respeitado como merece! Pronunciem-no, pois!”
O trema era um sujeito firme e de bom caráter. Sem sua ajuda, o leitor terá de se virar sozinho para descobrir quando o u deve ser pronunciado em que/qui/gue/gui (para que o leitor tenha certeza da minha intenção em relação à pronúncia do u, devo informar que escrevi cuê, cuí, gu-ê, gu-í. Lamentável…).
– Mas em nome estrangeiro o trema fica!
– Ah, tá! Ele deve ter adorado continuar na Bündchen da Gisele.
E o que dizer, então, do frio assassinato do acento diferencial? Já vou avisando aos politicamente corretos, sempre tão míopes, que acentos diferenciais não pregam nenhum tipo de discriminação entre quem quer que seja. Ao contrário, ao apontarem as diferenças, trazem à tona as qualidades intrínsecas de cada um e cada coisa, valorizando todos.
Mas veja a leitora ou o leitor que ridícula a frase “O automóvel para para não bater no caminhão”. Vá explicar a um estudante que os dois para são coisas completamente diferentes. Que um é preposição, o outro é verbo.
– O que é verbo, fessô?, perguntaria algum aluno dessas faculdades de fino trato que ultimamente o MEC autorizou pipocaram à farta por aí.
Não bastasse, nossos brilhantes e atarefados tomadores de chá, folgada e eternamente assentados na Academia, atrapalharam-se com as letras e, em lugar de mexerem o traseiro no assento (com ss), resolveram fazê-lo nos acentos (com c) agudo e circunflexo.
No agudo:
– Manhê, lá na escola tava escrito Coreia num cartaz. Será que esqueceram de um r no nome do seu Correia, o bedel?
– Não, filho! Isso deve ser coisa de algum bedel mental…
E o circunflexo, então? Agora, como diferencial, só será mantido no plural dos verbos ter e vir, o que vai deixar muito redator com um certo enjoo descircunflexado.
Bem, também tem o hífen, que, é claro, não poderia faltar. Pois o tal desacordo chatográfico-lusófono (alerto insistentemente ao leitor que evite a companhia da palavra) conseguiu a rara proeza de trocar seis por meia dúzia, substituindo umas regrinhas bobocas por outras, babacas.
Porém o estrago já foi feito.
Esqueceram-se os acadêmicos, e provavelmente nunca se deram conta as nossas autoridades, que o que diferencia a língua portuguesa das outras do mundo ocidental, inclusive as demais latinas, é sua riqueza incomparável, monumental, sua incrível capacidade de ser sutil, bela, harmônica, maleável, e, ao mesmo tempo, duramente exigente com quem não a conhece minimamente, com quem não a trata com o devido zelo.
Pois é. Os tais acadêmicos, daqui e d’além-mar, até conseguiram lá seus quinze minutos de fama, mas só fizeram papel de macaco em loja de cristais. Aposto um vintém como Fernando Pessoa teria torcido o nariz.
A troco de nada e em nome de coisa nenhuma, nós, brasileiros, que no geral mal sabemos escrever, porque na vida escolar não nos foi dado ler com a abundância recomendável, agora seremos obrigados a correr inutilmente o risco de redigir ainda pior.
Editoras deverão reeditar incontáveis títulos; e engana-se quem acredita que terão lucro estrondoso com isso. Toneladas literais de livros estocados em distribuidores e livrarias tornam-se doravante, por decreto, envelhecidos, desatualizados, refugo. Imagina o leitor quanto custa reeditar um dicionário? E que fazer com meu Aurélio, meu Houaiss? Meus Deus! Jogo-os no lixo? Além da vaca, irão também para o brejo, meus dicionários de etimologia, de citações e o de questões vernáculas, do mestre Napoleão Mendes de Almeida?
As redações de jornais, no afã noticioso, verão aumentados seus escorregões ortográficos e pedidos públicos de desculpas nas colunas “erramos”. Vivo fosse, lá iria o simpático e atencioso Eduardo Martins, pacientemente, revisar seu Manual de Redação e Estilo do Estadão, alertando editores e repórteres sobre os novos riscos de escrever.
E dos professores, sobretudo os da rede pública nos ensinos fundamental e médio, exigir-se-á, mais uma vez, esforço incompatível com seus magros rendimentos – e inexistentes investimentos em atualização pedagógica.
A língua é viva e é do povo. Há séculos o idioma escolheu naturalmente um caminho aqui no Brasil, miscigenando-se com as culturas negra e indígena, e deixando-se também influenciar por culturas européias e orientais. Escolheu outro em Portugal, e outros ainda nos demais países que o empregam na África e na Ásia.
Um puto em Angola é um menino pequeno, no Brasil será outras coisas. Não usamos peúgas por aqui, embora não andemos descalços. Portugueses não entram em filas, mas atrás de bichas, ato que, convenhamos, no Brasil leva às mais constrangedoras interpretações. E sabe Deus a quais influências terá sido exposto o português falado em Macau, Goa, Damão e Timor?
E, de resto, que sabemos nós, brasileiros, verdadeiramente sobre São Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde? Bem, de Cabo Verde temos algum conhecimento da boa música de Cesária Évora. Basicamente, não muito mais que isso!
Os idiomas falados nos tais países lusófonos não são, definitivamente, mesma coisa, mesma pessoa; são mais como irmãos: filhos dos mesmos pais, ainda assim diferentes em suas caras, personalidades e histórias de vida.
“O ser humano é sempre o mesmo, mas em todo lugar ele é sempre diferente”. O que disse Pessoa sobre as gentes vale obrigatoriamente para seus idiomas.
Minha pátria é minha língua. A miscigenação dos povos modifica minha cultura nacional; com isso, os fonemas; com eles, a ortografia. Pessoalmente, advogo que já falamos o idioma brasileiro, mas isso é assunto para outro dedo de prosa.
Eta acordozinho inútil. Só servirá de incômodo cotidiano.
Arrogantemente, sob discutíveis argumentos de aproximação cultural e econômica de povos de idioma comum, os tais dotôres da língua e otoridades da lei – daqui e de lá – usurparam um poder que é dos povos (pois aqui não deveria valer a representatividade), e não fizeram bem algum à língua portuguesa, apenas deixaram-na com mais um pequeno ferimento.
À última flor do Lácio, indefesa, arrancou-se uma pétala. Mal-te-quer.
Texto de ZECA MARTINS [publicitário, articulista WebInsider]
Fonte: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2008/12/21/acordo-ortografico-e-um-desacordo-cultural/´
Muito bom esse artigo sobre o novo acordo ortográfico.
Ao meu ver, foi uma imposição cultural. A língua é um organismo vivo e evolui juntamente com seu povo. Essa história de unificação... aff... onde fica a identidade do povo brasileiro? Por que não unificamos também o inglês falado na Inglaterra, USA e Austrália???? Simplesmente porque são países desenvolvidos?
AFF de novo!
Enfim... já foi feito, né. E nós, profissionais da comunição, professores, autores e demais que nos viremos para "educar" novamente.
Que venham os escorregões da mídia
=)
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
ONDE ESTÁ TODO MUNDO?
Olho a cidade e não vejo nada, sinto apenas o vento, um calafrio.
As janelas batem e rebatem, há folhas secas pelo chão,
Nas árvores, apenas os galhos e o tronco retorcido.
Está tudo cinza. É gélido, é quente, é seco.
Não há mais cor, mais vida
Busco, busco e não vejo nada
Está tudo abandonado, não há mais ninguém aqui.
Está tudo de pernas para o ar... cadê o chão?
Cadê? Cadê? Cadê?
=)
As janelas batem e rebatem, há folhas secas pelo chão,
Nas árvores, apenas os galhos e o tronco retorcido.
Está tudo cinza. É gélido, é quente, é seco.
Não há mais cor, mais vida
Busco, busco e não vejo nada
Está tudo abandonado, não há mais ninguém aqui.
Está tudo de pernas para o ar... cadê o chão?
Cadê? Cadê? Cadê?
=)
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