Proibido

quarta-feira, 30 de abril de 2008

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Não havia guia
Na rua em que eu seguia.
Não havia placa de mão
Ou contramão.
Não havia carro parado
Nem o povo apressado.
Só havia noite.
Cão faminto, correndo por um labirinto,
Vendo luzes de neon.
Brilho dos teus olhos
Que sempre gritavam:
NÃO!

O Quintal de sua Casa

segunda-feira, 28 de abril de 2008

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- Ainda não acredito que ele possa ter me tocado com sensualidade!!...

Já tinha se passado uma semana desde então, desde que tudo acabara. Desde que saíra daquele carro, essa era a frase que não lhe saía da cabeça.
Como aquela boca pôde ter feito aquilo? Como ela pôde ter sido tão atrevida ao correr até pescoço e nuca? Quando foi que aquelas mãos foram tão ousadas a ponto de tocar-lhe os seios, a ignorar a presença apertada do sinto? Em que momento elas se enfiaram por dentro da calça a apertar-lhe a bunda?
O menino cresceu. E crescendo, viu o que era bom. Perdeu com ela o pudor. Mas será que ele já teve alguma reserva para com ela? Ela era o quintal de sua casa. Uma extensão óbvia de si. Ele sabia-lhe a respiração e os minutos. Sabia-lhe os sentidos, os sentimentos.
A ela, as mãos dele sempre foram íntimas – mesmo antes de se tocarem. Sim, ela era o quintal dele. Assim concebeu-se naquele momento, e sem espanto. Conceber-se quintal. Descobriu-se assim pelas mãos do outro – e de um outro tão inocente! Pois é: inocente. Ela, aos 31 anos, já tinha vivido algumas aventuras. Viajada, estudada; sabida das coisas e das pessoas. Ele, aos 21, era apenas uma criança. Uma criança que brincava com seus peitos, que apertava sua bunda e que gritava-lhe besteiras, de tanta euforia e amor incontido.
Ainda era amador ao fazer a barba, para encanto dela - que se deleitava ao zombar dos poucos fios fora do lugar naquela cara lisinha.
Com a mesma inocência e naturalidade de um filho que toca sua mãe, assim ele a tocava. E, da mesma forma ingênua, ela recebia seus carinhos. Ver sua expressão pueril deitada em seu colo, roçando as mãos em seus seios por dentro da blusa enquanto contava seu dia, suas aulas. Era uma sensação maternal. Como esse amor se permite ser assim? A pureza que vai ao encontro da experiência. Esta, por sua vez, vê-se impelida a ceder, a ser a primeira experiência. As intenções eram unas, assim como o coração, como os sentidos, como os olhares. Como as almas.
Os extremamente opostos se completando ali. Um no outro. Ele dominava a cena – seguro e certo. Ela apenas concentia – com natural timidez.
Não houve nada além de carinhos. A pureza não de todo se perdeu. As intenções sim, ficaram no ar.
Ele a deixou em casa e foi embora. Não ligou no dia seguinte, nem no outro, nem no outro. Ela sim, pela imaturidade cabida, quis saber se ele estava bem. Se o fizera sentir-se usado. Sim, ele estava bem. Melhor que ela talvez. E talvez, ela tenha se sentido usada – um experimento aos mecanismos de resistência de um adolescente com os hormônios à flor da pele.

Vem!

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De manhã cedo reguei as plantas
Tomei cuidado com a água parada.
Troquei continas, abri janelas
Deixei o sol aquecer toda a casa.
Comprei roupa nova e outro perfume.
Liguei o som alto.
Ouvindo sua música
Abracei o meu corpo e dancei.

Cai a tarde, as horas avançam
Uma esperança ou vontade ou saudade me invade e me excita
E eu que não sei cozinhar
Preparo um belo jantar.
Vejo no céu a primeira estrela
E algo em mim se agita.
Sinto que você já vem
Então é hora de abrir as portas
E meus braços também.


Poema inspirado em uma menina que espera seu namorado e eu tenho certeza que ele chegará e eles serão muito felizes, como tem que ser os grandes amores.

A música e as revoluções (a revolução dos cravos)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

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Tanto mar
(Chico Buarque - 1975 primeira versão)*

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

* Letra original,vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975.

Nos primeiros minutos do dia 25 de abril de 1974 a rádio Renascença , de Potugal tocava a música Grândola Vila Morena.

"Grândola, Vila Morena
Terra da Fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti o cidade!" (...)

Era a senha para a revolução que poria fim a quase 50 anos de ditadura naquele país. Houve duas senhas. A primeira às 23:00h do dia 24, com a música "E depois do adeus". Ao ouvir a segunda, às 00:20h, as tropas revolucionárias foram ocupando postos estratégicos e a conquista da democracia era uma questão de horas.

O cravo tornou-se o símbolo da Revolução de Abril de 1974; Com o amanhecer as pessoas começaram a juntar-se nas ruas, solidários com os soldados revoltosos; alguém (existem várias versões, sobre quem terá sido, mas uma delas é que uma florista contratada para levar cravos para a abertura de um hotel, foi vista por um soldado que pôs um cravo na espingarda, e em seguida todos o fizeram), começou a distribuir cravos vermelhos para os soldados, que depressa os colocaram nos canos das espingardas.

O interessante é que Geraldo Vandré, bem antes já dizia "... e acreditam nas flores vencendo o canhão."

Cordel à Virgem Maria

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Virgem Santa Imaculada
Pelos anjos coroada
Pelos homens tão amada
Vinde, Mãe, nos socorrer!
Em seu seio hei de nascer
Para em ti Jesus louvar
Nossas culpas vem livrar
Seu amor engrandecer!

No meu peito já ferido
O perdão bem esquecido
Sua paz, um bem querido
Eu espero ansioso.
No teu colo amoroso
Eu me ponho tal criança
E em fiel esperança
Ver seu Filho Glorioso!

Cordel do Desencanto

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A donzela à janela
O seu sonho ela buscava
Numa folhinha riscando
Pensamentos rascunhava.
Cavalheiro ia passando
Sua donzela procurava.

O luar estava belo,
As estrelas, sorridentes;
O vento soprava brando
Nos seus cachos envolventes.
Seus olhares se cruzaram,
Encontraram-se silentes!...

A donzela enrubeceu
À mirada apaixonada.
Em seu peito a emoção
Já era desenganada!
Ele era um trintão,
A donzela, aposentada!

- O meu pai, que vai dizer?
Disse a donzela acanhada.
- A família, os vizinhos?
Ela estava preocupada.
- Como a isso dou um jeito?
A idade era passada!

Seu rapaz, um belo jovem
Galante se apresentou.
Ao seu encanto e charme
A donzela apaixonou
Tomou-lhe suave a mão
Com um beijo a selou.


- Calma, calma, ó donzela
Não quero seu despudor!
Estou aqui à janela
Para pedir-te um favor:
Tua sobrinha tão bela,
É só dela o meu amor!

A donzela, constrangida,
Pôs-se toda em rubor.
Com a face entristecida,
Seu peito cheio de dor,
Foi chamar-lhe a sobrinha,
Já não tinha mais amor!

Mais um que disse adeus

sábado, 19 de abril de 2008

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Eu, que tinha em mim todos os sonhos do mundo,
Agora sou mais um que acordou para a realidade.
No mundo dos tolos só os tolos ganham, só os tolos perdem
E eu fui um tolo em pensar que podia ser feliz.
O vento frio arde em meu rosto
Mas nada é mais frio que o gelo em meu coração.
Poemas sem rimas e frases desencontradas
É tudo o que sei dizer.
Passo momentos difíceis e, como se não bastasse,
Você me diz que vai partir.
Admiro minha falsidade desejando que você seja feliz
Quando o que eu queria era que você ficasse aqui.
Me acostumei à solidão
De tanto viver em desengano
Um dia aprenderei a sorrir.
Aconteceu tão de repente!
E eu que tinha em mim todos os sonhos do mundo
Agora sou apenas mais um que disse adeus...

Ontem, ouvindo a música "Virgem" da Marina, me lembrei desse poema que escrevi em 1988. Já não faz tanto sentido para mim agora. Agora sou apenas mais um que disse adeus, mas como diz o Guilherme Arantes na música "Pedacinhos" (...) "Adeus também foi feito pra se dizer". O legal é notar o efeito do tempo, algumas marcas irreversíveis, porém sem dor.

VALORES ADQUIRIDOS

quarta-feira, 16 de abril de 2008

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“Pegando um gancho” nos textos (http://pensamentocris.blogspot.com/2008/04/mudar-faz-parte.html e http://pensamentocris.blogspot.com/2008/04/cuidar-do-jardim.html), vamos enriquecer o assunto em discussão.
Em publicidade, anunciar sua marca fazendo uso de um tema que está em pauta na mídia, chama-se marketing de oportunidade. Se eu fosse um carioca malandro (sem discriminação àqueles nascidos nesse estado) seria oportunista. E em Literatura, hein? Como chama..rs...
Todos nós sabemos que não é nada fácil mudar, aceitar novos conceitos, valores, botar a boa e velha rotina de cabeça para baixo. Tudo isso faz parte de um processo lento, gradativo e em muitos casos invasivo.
Mas afirmo com convicção, que depois de adquirido, esses valores começam a fazer parte do seu cotidiano e você passa a sentir falta deles.
Um exemplo? Ofereço um atual, sobre um tema que está na moda: reciclagem.
Você separa seu lixo?
Na sua cidade não há política de coleta seletiva e em vista disso você acha que separar o lixo em reciclável e orgânico é uma tarefa árdua e muito trabalhosa...
Não, não e não! Sabe o que falta? Primeiramente vontade de mudar. Segundo, esse novo conceito deve ser inserido entre os seus, fazer parte dos seus hábitos, da sua cultura (entenda cultura aqui como “hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”fragmento da definição de Edward Burnett Tylor). Você deve se conscientizar, educar, reeducar.
E depois que isso acontecer? Meu caro... você sentirá falta disso! Sentirá falta dos valores que aprendeu, que praticava e se vê a não praticá-lo mais.
Algo mais sintético e obvio?
Trabalhava com um cidadão que à primeira vista parecia-me “neurótico”, pois até a tampinha do iogurte ele lavava e colocava para reciclar. Para me enquadrar às diretrizes, adaptei-me e aderi à causa. E com o tempo, também passei a separar o lixo em casa. Eu separo, minha família separa, todos nós separamos.
Hoje, em um novo ambiente de trabalho, sinto falta dos princípios de meio ambiente, economia de água, reciclagem. Sinto-me perdida, não sei o que faço com a casca de banana, a lata de refrigerante e o rascunho da reunião de ontem.
Por que tudo isso?
Porque o antes tachado de neurótico estava correto, me persuadiu... aprendi o conceito, virou valor, englobei-o ao meu dia-a-dia e agora ele faz parte da minha cultura.
Mudar faz parte do processo e como dizia Darwin: adaptação ao meio.

Fobia, fúria e fé

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Te amei com medo
Displicente para não ser notado
Sem querer me mostrar apaixonado
Te amei.
Sem pensar em castidade
Como ventania em noite escura,
Como água batendo em pedra,
Com medo e vontade
Te amei.
Te amei com certeza
Deixando tudo para trás.
Corpo sóbio na correnteza
Querendo me embriagar.
Sim.Foi assim.
Você me apanhou te olhando
E o que sentiu, não sei
Mas naquele dia
Por um instante te amei.

Cuidar do Jardim

terça-feira, 15 de abril de 2008

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Hoje a Flá veio à minha mesa cobrar minha presença em seu blog. Eu disse que nem no meu eu estava dando o ar da graça! Contudo, mediante a esse pedido tão doce da minha amiga, fui lá. Acessei suas páginas cor-de-rosa e li um texto que na verdade deveria se chamar Cris.

Flá, também estou bem nesse momento. Mudanças, olhar para si, perceber-se.
Para mim, é muito difícil mudar. Mudar de qualquer coisa: de cabelo ou de casa; de escola ou de trabalho. Mas, mudar é preciso!! O problema é a dificuldade em aceitar isso.

Concordo com você e com o Mário Quintana sobre cuidar do jardim. O meu estava bem feio mesmo: folhas secas, ervas-daninha...enfim. To limpando, né?! Tem sido bem terapêutico - por assim dizer.

Também, não por acaso, o comentário do meu estimado amigo e poeta Alcides V. Lima veio bem a calhar! Cada linha da música abaixo faz sentido para mim. É exatamente o que estou vivendo hoje.

Meu JardimVander Lee
Composição: Vander Lee

Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho
Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim

Boas mudanças a todos!

Sem vestígio (O vazio das almas)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

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Não existe fotografia
Nem imagem de câmera oculta.
Não há nenhum manuscrito
Uma carta, bilhete ou nota curta.
Não há desenho no muro
Nem nas paredes das cavernas.
Não há fósseis nem objetos
Que comprovem alguma evidência
De velhos jovens apaixonados.

Ficou na vaga memória
De dois corações cansados
Por procurar, um no outro,
A verdadeira parte que lhes cabe.

Só o tempo é testemunha
De tudo o que aconteceu,
Mas este velho caduco
Insiste em dizer que não sabe
-Finge que passou ou morreu.

Drink

quinta-feira, 10 de abril de 2008

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Ódio à moda da casa

Ódio à gosto;
Rancor salpicado à borda da taça.
O Remorso dá a textura
E uma dose dupla de Imprudência dá o corpo.
Extremismos para dosar a temperatura,
Melancolia para enfeitar, num palitinho de fel.
Desprezo para gelar.

Poema de Morte

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Queria que você morresse
Queria, aliás, que nem tivesse nascido
Desgraça na minha vida foi ter te conhecido
E te ter quisto para sempre
Maldigo o dia em que me apareceste
Com toda a pompa de um barroco
Nos seus paradoxos quase inocentes
Me destruindo aos poucos
Me derrubando aos blocos
Me abalando os muros.
Saindo, sem apoio, nem muros,
Dei com a cara no vácuo.
Descobrindo-me, estava ensagüentada no chão.
A perícia não te incrimina, pois não havia vestígios de ti
Fora do meu coração.
Tratam-me como louca e a tentativa de suicídio pode ter sido depressão.
Hoje, de longe me olhas, como ser rastejante ao chão,
Massacrada, derrubada, ainda pisas no meu coração.
Ser indigesto!
Prefiro hoje entregar-me aos vermes!

O sol de Ícaro

domingo, 6 de abril de 2008

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Nada me assusta.
Nem bicho, nem trovão, nem assombração.
Mas quando estou perto de você
Eu quase morro de medo...

MUDAR FAZ PARTE

quarta-feira, 2 de abril de 2008

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O tempo vai passando e algumas coisas vão mudando.
Às vezes, as transições são tão simples que passam despercebidas e às vezes nos causam tantos conflitos e nos colocam em meio a um turbilhão de questionamentos.
E você? Já parou para pensar que o tempo passa e que as coisas mudam?
... que as responsabilidades aumentam?
... que as músicas que você ouve já não são mais as mesmas?
... que os lugares que você freqüentava, não freqüenta mais...
... que seus conceitos mudaram e o que antes era rotulado como “sei lá o que” agora é uma “pérola” e assumiu alto grau de importância. E aquilo que era uma “relíquia” e ninguém poderia sequer tocar, está prestes a visitar o lixão.
Perceba: seu interesse mudou, seus conhecimentos ampliaram e as dúvidas também. Seu objetivo também mudou e estabilidade é a palavra-chave.
Estabilidade financeira, estabilidade emocional (é isso mesmo: o velho ditado “casa comida e roupa lavada”), estabilidade, estabilidade e estabilidade. Até seu círculo de amizades mudou, agora você tem muito mais contatos que amigos. As refeições são sempre almoço de negócios, happy hour com os colegas de trabalho.
E como administrar a chegada dos novos conceitos, a ruptura dos antigos e sobreviver a todas essas mudanças? É um passo, um tropeço... uma porta que bate, uma janela que abre...