Eu, etiqueta

terça-feira, 15 de julho de 2008

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Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade

4 comentários:

_TaTHa_ disse...

Todos já devem conhecer esse poema de Drummond. Ele foi escrito em 1970, publicado em 1984.
Embora escrito para a abertura comercial do país, descreve perfeitamente a nossa sociedade de consumo e valorização das marcas, marcas e marcas.Comprar, comprar e comprar...
A comunicação é tão forte, tão bem elaborada e a massa tão mal esclarecida que segue na alienação.
Lamento ainda por aqueles que são dito "esclarecidos", de acesso à educação de qualidade (leia aqui, colégio particular, faculdade) e na realidade sofrem de "analfabetismo funcional".
Diploma não confere raciocínio crítico não é mesmo.

Cris disse...

Analfabetismo funcional - perfeita a definição!! è exatamente esse o caso!! E esse texto é ótimo!! Valeu muito o post. Valeu mais ainda a reflexão!!

Alcides disse...

"Sou adolescente na sociedade de consumo/Bala Juquinha e Supra-sumo/Eu gosto de comer Ana Maria/ E Nhá Benta da Kopenhagen"[...].Essa é do fundo do baú, como vovó já dizia.

Sem perceber estamos todos os dias carregando mais uma etiqueta: MADE IN CHINA.

Beijos!
Alcides

_TaTHa_ disse...

A China vai dominar o mundo...rs